Domingo, Maio 16, 2021
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Entrevista a Aurélio Pereira – LEITURA OBRIGATÓRIA

O Record hoje esteve em alta, como tem estado em clara melhoria nos últimos tempos, com uma excelente entrevista a Aurélio Pereira. A formação, Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus, Rúben Semedo e Gélson Martins são os destaques.

Os caminhos do Sporting e de Cristiano Ronaldo voltam a cruzar-se esta quarta-feira em Madrid. Aurélio Pereira, 68 anos, aceitou o convite de Record e conta como foi a chegada do craque a Alvalade e o impacto que ela causou, em 1997. “Veio para o clube certo”, defende.

RECORD – Por onde começou a contratação de Cristiano Ronaldo?

AURÉLIO PEREIRA– Havia uma dívida da transferência do Franco [antigo central, hoje treinador do Pedras Salgadas] que impedia o Nacional de inscrever jogadores se não pagasse direitos de formação, a nós e ao Odivelas. O Dr. Marques de Freitas, nosso presidente do núcleo na Madeira e simultaneamente sócio do Nacional, contactou-me, disse que o Nacional tinha um miúdo muito bom e perguntou se podia haver um encontro de contas.

R – De quanto era a dívida?

AP – Seria hoje de 25 mil euros. Mas 5 mil contos, em 1997, tinha outro som [risos]. Quando a hipótese me foi colocada, nunca supus que pudesse ser possível. Mas, pelo respeito que tinha para com a pessoa, não quis ficar na dúvida. Face à insistência, disse-lhe: ‘O doutor manda-me o miúdo, paga as passagens.’

R – Paga as passagens?

AP – Foi o núcleo do Sporting na Madeira que pagou as duas passagens, porque ele viajou com o padrinho, o senhor Fernão Sousa. Era a primeira vez que recebíamos um jogador de 12 anos no centro de estágios e logo depois do primeiro treino o Osvaldo Silva e o Paulo Cardoso disseram-me que o miúdo de facto estava para além do que era normal.

R – Não quis ver por si próprio?

AP – Eu era o responsável pelo futebol juvenil mas, sendo de formação técnica, nunca poderia fazer uma coisa às cegas. O melhor olheiro do Mundo é S. Tomé – ver para crer [risos]. Fui ver e confirmei tudo o que eles tinham dito: uma desenvoltura fantástica, velocidade de execução, jogo aéreo, pé esquerdo, pé direito… Mas o que me impressionou foi ver a aceitação dele perante os outros, mais velhos um ano. A dada altura ele volta-se para trás e diz: ‘Ò miúdo, tem calma!’ Aquilo para mim [risos]… Como é possível!? ‘Ó miúdo tem calma’, quando ele era mais novo?! Tive a sensação de que estavam todos completamente rendidos ao que tinha chegado naquele dia. Caiu no Sporting como um ‘OVNI’ [Objeto Voador Não Identificado]. Aquele futebol de rua, o à-vontade, o não ter medo de nada. Impressionou-me muito.

R – Portanto, não hesitou em propor o acordo à direção. Como foi essa parte da história?

AP – Não ficaria descansado se não informasse quem de direito, o Dr. Simões de Almeida, vice-presidente e diretor financeiro, e a Dra. Rita Figueira, a jurídica que teria de resolver problema com a Federação. Coloquei-lhes a questão por escrito e eles chamaram-me. Para os homens do dinheiro, um cêntimo é mesmo… um euro [risos]! Ele questionou-me.

R – Se seria uma ‘loucura’, talvez, ainda que não nestes termos?

AP – Uma proposta daquelas não era muito vulgar. Mas falámos na administração, eu desci para a porta 10-A e passado meia hora a Dra. Rita [Figueira] ligou-me a dizer que ele tinha assinado. O Dr. Simões de Almeida foi perspicaz. Pressionou-me para sentir se eu estava convicto do que dizia. Curiosamente, uns anos mais tarde, no dia da inauguração do estádio, com o Manchester [United], encontrei-o sozinho a beber um café, num quiosque junto aos camarotes, e disse-lhe: ‘Então, o miúdo?’ E ele voltou-se para mim e respondeu: ‘Joga umas coisas, joga umas coisas!!!’ [risos].”

R – Como avalia a passagem de Ronaldo pelo Sporting?

AP – Quem sou eu para questionar os nossos rivais, mas o Cristiano veio para o clube certo. Ele tinha tudo no seu ADN. Nós não lhe subtraímos nada. Aumentámos-lhe a possibilidade de criar. Foi o próprio Ronaldo mais tarde a transformar-se num jogador da indústria futebolística. Quando ele entrou no Man. United era mais artístico. Hoje sabe perfeitamente que o recurso não é o passe, é o drible.

R – Voltou a aparecer-lhe um jogador semelhante?

AP –Temos jogadores fantásticos na equipa principal do Sporting. Todos com aquelas três qualidades que eu considero muito importantes: paixão pelo treino, pelo jogo e pela profissão. É muito difícil encontrar um talento ao nível de Ronaldo, Messi ou Figo com essas três qualidades. Por isso é que todos têm longevidade na carreira. O Ronaldo vai jogar nas calmas até aos 37/38 anos.

RECORD – ‘Os Aurélios’ do Europeu de França, assim batizados pelo Sporting em sua homenagem, mostram que a formação está bem e recomenda-se?

AURÉLIO PEREIRA – Claro. Era ironia dizer-se que o Sporting apostava na formação porque não tinha dinheiro. Nada mais errado. O Sporting só aposta na formação se os jogadores tiverem qualidade. Caso contrário, tem de ir buscar fora. Acontece é que os treinadores quando chegam, como disse o Jorge Jesus, encontram qualidade. E os outros para trás dele igual. É importante criar jogadores como Patrício, Rúben Semedo, João Mário, William, Gelson, Adrien. Não há nada melhor do que ter adeptos fora e dentro do campo. É lógico que toda e qualquer pessoa queira melhorar e ter outras oportunidades. Mas o que é facto é que eles têm lá a marca Sporting e o amor ao clube. Disso não tenhamos a menor dúvida.

R – Mencionou Jorge Jesus. Tem ajudado ao salto de qualidade?

AP – É uma mais-valia. O presidente e Jorge Jesus têm em comum a ambição e a exigência. O clube passou a ser respeitado por isso.

R – Para o treinador, Gelson Martins e Rúben Semedo são hoje titularíssimos. Como tem acompanhado a evolução de ambos?

AP – Se lhes dá oportunidade, não é por terem olhos bonitos. A confiança de um jogador aumenta muito quando sabe que tem um treinador exigente. Hoje em dia o Gelson não deixa nada por fazer. Transformou-se num jogador de campo todo, trabalha para ele e para a equipa. A grande revolução na mentalidade dele está à vista. O Rúben Semedo está um senhor central. Tinha um conjunto de matérias mais agonísticas que às vezes ultrapassavam as marcas. Mas evoluiu muito, em autoridade e em aspetos técnicos.

R – De onde lhe nasceu a paixão por detetar talentos?

AP – No Futebol Benfica. Foi onde eu me iniciei como treinador. É o clube do meu bairro [risos]. E já trouxemos de lá o Gelson [Martins] e o [Rúben] Semedo. São jogadores lá do meu bairro [risos]. A paixão começou quando o meu irmão [Carlos Pereira] me convidou para treinar os juvenis do Futebol Benfica. Andei ali pela Brandoa, pelos bairros todos, a ver jogadores. Apaixonei-me pela situação e nasceu aí essa febre.

RECORD – Ronaldo já atingiu todo o potencial dele?

AURÉLIO PEREIRA – Ele melhora o seu desempenho através da intervenção no grupo, como faz na Seleção. Basta lembrar o incentivo ao Éder. Pode haver aqui e ali um desencontro mas tem ambiente com os jogadores dentro do balneário e olha sempre pelo interesse da equipa.

R – Ficará na história como o melhor jogador português de sempre?

AP – Os grandes atletas valem pelos títulos que conquistam. Posso ser um grande ciclista mas por muitas vezes que fique em segundo na Volta a França [risos] serei recordado apenas por ser segundo.

R – Como Raymond Poulidor.

AP – Exatamente. Agora, por tudo aquilo que fez, Ronaldo é o melhor de todos os tempos.

R – Português e estrangeiro?
AP – Nós quando comparamos jogadores que foram os melhores do Mundo, estamos num patamar em que ninguém lhes pode roubar aquilo que lhes foi atribuído. Estamos a falar do melhor jogador português de todos os tempos e um dos melhores do Mundo, sem sombra de dúvidas.

R – Mantêm contacto?

AP – Sim. Une-nos uma grande amizade. Apraz-me registar o respeito que temos um pelo outro.

R – E como antevê este reencontro em Madrid e Lisboa?
AP – Os irmãos também jogam contra irmãos e não será a primeira vez. Ele vir aqui à sua casa de origem vai ser sempre um marco. E é uma forma de ele sentir o carinho que as pessoas do Sporting têm por ele.

RECORD – Surpreendeu-o que Ronaldo saísse do Sporting ao cabo de apenas uma época?

AURÉLIO PEREIRA – Não estava à espera que saísse logo. Ele era júnior quando se transferiu para o Manchester United. Mas continuou na senda de ir para o clube certo, porque eles tinham jogadores fabulosos. O Ronaldo impôs-se porque trabalhava muito e era respeitado até pelos mais velhos. A camisola 7, o estádio e a forma como ele se estreou é de um estofo incrível que só os atletas de altíssima qualidade possuem.

Autor: Vítor Almeida Gonçalves (Record)

 

 

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3 COMENTÁRIOS

  1. Acho que o Ronaldo vai ficar impressionado com o ambiente quando vier a Alvalade… e espero que no fim fique mais impressionado por ter pedido contra uma grande equipa! 🙂

    E espero que o BdC consiga mesmo um dia trazê-lo de volta… para acabar a carreira na Europa aqui. Depois pode ir brincar à bola para os States… 🙂

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