João Mário

No meio das polémicas várias e o chamado carvão que muito se insiste em andar a espalhar por aí sai hoje na imprensa uma excelente entrevista de João Mário a Mariana Cabral e André de Atayde. Vale mesmo a pena ler na integra.

És o dez na camisola, mas vês-te como o novo ‘dez’? Ou seja, que já não é bem ‘dez’, é um ‘dez’ na ala. É um número. Sei que é um número muito especial, que grandes jogadores em Portugal já usaram, mas tento não pensar muito nisso. Acima de tudo, jogando na direita, na esquerda, no meio, tento sempre dar aquilo que o treinador me pede, consoante as minhas características. É isso que posso oferecer e tento não pensar muito no número, porque senão torna-se uma grande pressão.

Quando eras miúdo olhavas mais para os ‘dez’? Sim. É uma posição que gosto bastante e gosto bastante dos jogadores que jogam aí.

Quem? Gosto de vários… Dos portugueses gostava do Rui Costa, por exemplo. Era um jogador que gostava bastante de ver jogar. A minha maior referência, o Zidane, também jogava nessa posição. Olhava sempre, mais pela posição e não tanto pelo número, mas é um número especial claramente.

Há tempos falava com o Rui Bento, que foi teu treinador nas seleções jovens, e ele dizia que se via logo que já com aquela idade eras um jogador incrivelmente inteligente no jogo. Como desenvolveste essa capacidade? Não sei. Acima de tudo acho que nasce um pouco connosco, com as nossas características. Tento sempre pensar o jogo de uma forma diferente. Quando era miúdo, como era assim um bocadinho gordinho, se calhar tinha de compensar a falta de velocidade com inteligência e fui desenvolvendo mais esse ponto. E acho que agora tem-me ajudado bastante, é um dos meus aspetos mais positivos.

Agora são dois aspetos positivos, porque és inteligente e já não és gordinho. [risos] Exatamente. No aspeto físico é normal, quando somos mais novos… Era como era e compensava com outros atributos a minha falta de velocidade. Mas felizmente também consegui desenvolver outros aspetos e tornei-me num jogador diferente.

Já te sentes perfeitamente confortável a jogar na ala?A minha posição normal, a que estou mais habituado, sempre foi no meio, mas sendo polivalente posso dar outras ideias às equipas e aos treinadores. Neste momento sinto-me confortável a jogar na ala, é verdade, mas acima de tudo tento não pensar que jogo na direita, na esquerda ou no meio, tento dar as minhas características à equipa.

Quando eras mais novo já tinhas a perceção de seres mais inteligente a jogar do que os outros? Já lhes dizias ‘olha, vai ali mais para a esquerda’? [risos] Comecei desde muito cedo a ser capitão na formação do Sporting e acho que se deveu muito a isso. Já tinha alguma maturidade na altura, mas, não sei, acho que também nasce connosco e felizmente consegui ter essa sabedoria muito cedo.

Imaginavas-te titular na seleção? Nós jogadores sonhamos sempre muito, acreditamos sempre muito e achamos sempre que devemos estar logo, que as coisas devem acontecer todas muito rápido, mas tudo tem o seu tempo. Felizmente consegui agora estar cá, nos 23 convocados, e se o selecionador entender que sim, terei muito gosto e muito orgulho em ser titular.

Quem é o jogador que gostas mais de ver jogar?Atualmente? Pogba.

Vais pedir-lhe a camisola? Já troquei com ele, no meu primeiro jogo pela seleção, que foi contra a França. Já o tinha defrontado várias vezes nas camadas jovens, porque ele é do meu ano, mas tive essa sorte. Se nos cruzarmos com a França novamente o William pode ficar com a camisola, que também gosta muito dele [risos].

O que fazes no estágio? Temos muito tempo livre, é verdade. O meu maior hobby nos estágios é ver séries, sou viciado. Estou sempre a ver várias séries, tanto nos estágios como nas viagens.

E quando é que chega aquela altura de já estares farto dos colegas? Não, este planeamento tem sido muito bom, porque temos tido alguns dias livres, o que é sempre importante para não haver saturação. Mas acima de tudo é bom desenvolver o espírito de equipa, conhecermo-nos melhor uns aos outros. Tem estado um ambiente muito agradável no seio da seleção.

É difícil chegar à seleção e esperarem que jogues como jogas no clube? É mais complicado, porque no início não estamos tão rotinados com certos colegas, que não jogam connosco, não jogam no mesmo sistema, não têm a maneira de pensar que nós temos no clube. Mas também é por isso que nos preparamos algumas semanas antes, para haver melhor entrosamento. Acredito que dia 14 estaremos completamente entrosados e que irá correr muito bem.

Gostas do discurso ambicioso do selecionador?Gosto e acredito bastante, porque não basta só dizer que queremos. Se não acreditarmos naquilo que o selecionador diz, não vale a pena competirmos. Acredito bastante que podemos vencer mas tendo sempre a noção que não é um percurso fácil, que não podemos queimar etapas, portanto o nosso foco deve estar no primeiro jogo e depois passar a fase de grupos.

Quem é que vês como a seleção favorita? Talvez a França, porque joga em casa. Sendo uma seleção bastante competitiva, bastante forte em todos os aspetos, físicos, técnicos… Acredito que possa ser a favorita por estar em casa, mas também há a Alemanha e a Espanha.

A França tem tido algum azar com as lesões, ficou sem Varane e Diarra. Quando vocês estão a treinar pensam nisso? Tento não pensar nisso num plano individual. Acho que só atrai más energias. Talvez se pensarmos demasiado nisso as coisas possam acontecer. Temos sempre cuidados, como é óbvio. Todos queremos jogar e todos queremos dar tudo e treinar bem, mas temos noção que são nossos companheiros e acho que o pior que podia acontecer era lesionar um companheiro e ele falhar uma competição destas.

O outro problema da França é o Benzema, que já insinuou que não foi convocado por um certo racismo. Alguma vez sentiste algum problema do género em Portugal? Não. Felizmente, zero mesmo. Em relação a esse tema não há mesmo nada.

E até agora também zero polémicas com a seleção.Sim, o ambiente está ótimo, está agradável. E espero que possa continuar assim até ao final do Europeu.

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