Caro José Pereira, Presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol,

Dirijo-me numa carta aberta não por sentir uma mágoa que precise de exorcizar publicamente, mas porque é em público que quero que saiba que não fico calado quando vejo o símbolo maior de uma classe profissional que, com muito orgulho, é a minha, a ser vilmente atacado.

Hesitei, não nego, durante um instante, por mera preocupação cívica: sei que quem o ataca o faz para conseguir justificar o ordenado que leva para casa no fim do mês e que, em tempos de crise, as pessoas são capazes dos atos de maior desespero para não perderem a sua fonte de rendimento. Sobretudo quando à crise mundial, que a todos bateu à porta por igual, se juntam crises domésticas que deixam a nu a incompetência de que todos desconfiávamos e agora temos a certeza.

Mas desfizeram-se as minhas hesitações quando olhei para o calendário e reparei na coincidência das declarações, com a época de evocação do desaparecimento de um dos maiores dos nossos, e pensei: “merece o grande Pedroto que a classe profissional a que deu prestígio seja destratada por um qualquer arrivista que não ficará na história do nosso futebol?”

É fácil, demasiadamente e até perigosamente fácil, ter acesso à intoxicação da opinião pública através de ferramentas de propaganda. Com a máquina da propaganda qualquer iliterato passa por ‘catedrático da bola’ porque este é, na realidade, um ofício de homens simples. Homens simples no seu labor, homens simples na forma como se relacionam entre si, homens simples que interpretam a paixão de milhões de adeptos em todo o Mundo. Homens simples que não pretendem nunca deixar de o ser e que oferecem ao planeta um espetáculo grandioso em todos os aspetos: na referida paixão, nos montantes que movimenta, nas alegrias e tristezas que desencadeia.

Somos Homens simples que fazem desta indústria a sua vocação profissional para toda a vida: o futebol não é para nós (treinadores, jogadores, técnicos) um mero episódio da nossa vida, um nome para colocar numa carteira de clientes, uma forma de reconhecimento social.

Uma lesão não é, para nós, uma linha fria numa nota à imprensa. Uma transferência não é uma quantia em euros num comunicado. Um adeus aos relvados não é uma referência numa notícia.
Todos sabemos a importância da Comunicação num Mundo Global em que a informação corre depressa. Mas até os ‘homens simples’ do futebol conseguem distinguir o nobre ofício da Comunicação da opaca profissão do mero propagandista que em tudo se intromete, sobre tudo tem opinião, com qualquer coisa faz uma intriga.

Temos um Código de Ética, palavra e conceito que deve atrapalhar quem nos ataca, e não recebemos lições de moral de avençados da propaganda que não conseguem ostentar uma única conquista na vida que tenham alcançado por mérito próprio.

Esses, que a cada momento optam pelo ruído com o qual tentam camuflar a sua própria desorientação, que não tenham dúvidas: a solo ou em coro podem fazer e dizer tudo o que quiserem, mas estão condenados ao esquecimento.

Octávio Machado

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